7 perguntas para entender o racismo estrutural
- Catarse
- 1 de jun. de 2020
- 5 min de leitura
Xingar de ‘macaco’, jogar bananas em negros em uma partida de futebol ou dizer que o cabelo crespo é ‘duro’ ou ‘ruim ‘são claramente atitudes racistas. Entretanto, principalmente no Brasil, o racismo estrutural (aquele velado, sobre os panos) é extremamente comum, desde o individual até o institucional. Vamos entender sobre esse tipo de racismo por meio de 7 perguntas:
1) O que de fato é racismo estrutural?
Racismo é qualquer ato que ofende e diminui o indivíduo tomando como base a raça, se manifestando por práticas conscientes ou inconscientes, por meio de hábitos, falas e situações de modo a provocar direta ou indiretamente a segregação racial
2) Mas de onde isso surgiu?
Como aprendemos na escola, o Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão, em 1888. Entretanto, após a abolição não foi criado nenhum tipo de auxílio por parte do governo ou qualquer instituição que visasse a inserir os negros recém-libertos na sociedade. Dessa maneira, saíam da casa de seus senhores feudais sem dinheiro algum, levando consigo apenas as memórias do que sofreram e uma forte vontade de sobrevivência. A sociedade, porém, não era nada receptiva em relação a isso, tendo em vista que por mais de 300 anos esses negros eram vistos como meros objetos, tratados piores que animais e então eram libertos e, teoricamente, começariam a frequentar os mesmos lugares que os brancos, e olha que coisa horrível, a ser tratados como os tais. A dificuldade para conseguir empregos e acharem um local na cidade, levou os negros a construírem suas casas em morros, pois eram as regiões onde ninguém habitava, que deu início ao que hoje conhecemos por favelas. Nas favelas, essas pessoas viviam em situações extremamente precárias, muitas vezes precisando recorrer ao crime para sobreviver, já que conseguir um emprego decente era quase impossível. Desse modo, surgiu a imagem do ‘preto vagabundo e preguiçoso, que serve para trabalhos braçais’, que perdura até hoje.
As mulheres negras sofrem ainda mais. Na época da escravidão, elas não só trabalhavam e recebiam os mesmos castigos que os homens, mas também eram alvo de constantes estupros de seus senhores. Desses estupros, resultavam crianças mestiças, obviamente não reconhecida pelos ‘pais’, tendo a sua única importância naquele meio de repor a mão de obra. Esses estupros ocorriam por dois principais motivos: para desestabilizar as mulheres, demonstrando a superioridade do branco e objetificação do negro, especialmente da mulher, e também porque naquela época as mulheres brancas estavam no auge de sua feminilidade, sendo vistas como meras donas de casa e mães. Então, o homem branco ‘descontava’ suas ânsias sexuais na mulher negra. É daí que vem a premissa de que mulheres negras são ‘selvagens na cama’, por exemplo. Do estupro.
3) Bom, mas se os negros se esforçarem eles chegam nos mesmos lugares que os brancos, não é?
Errado. Enquanto os homens brancos estavam enriquecendo, discutindo política e relações internacionais, o homem negro era açoitado amarrado numa árvore. E isso há menos de 150 anos. Como esperar igualdade se as linhas de largada estão em posição tão diferentes? Quanto mais alto o cargo, menos vemos pessoas negras o ocupando. Isso é porque são preguiçosos e não se esforçam? Não, é porque até há pouco tempo os negros estavam lutando pelos direitos de ao menos poderem frequentar uma escola. Como é possível em uma população 56% autodeclarada negra e parda ter apenas 18% dos cargos políticos ocupados por negros? O problema é que escolhemos pessoas por afinidade, seja para investir em candidaturas políticas, seja para uma entrevista de emprego. Assim, o homem branco, entre um negro e outro branco, do mesmo nível de escolaridade e renda, vai muito provavelmente escolher o ‘irmão branco’. Então não, meu amigo. A solução não é apenas ‘se esforçar’.
4) Racismo reverso existe?
Sinto muito te contar essa notícia, mas não existe. O motivo? Muito simples. Racismo é a ideia de opressão de uma classe dominante sobre a outra, a oprimida. Sendo o Brasil um dos últimos países a abolir a escravatura, além da falta de representatividade de negros num país de maioria negra, já deixam claro que de fato há uma classe dominadora no país. E definitivamente não é a negra.
5) Como podemos observar o racismo estrutural no dia a dia?
Por meio de expressões, por exemplos, que já estão na estrutura da sociedade de tal forma que muitas vezes nem percebemos. São falas com conotação pejorativa, sempre utilizando de palavras como ‘preto’ ou ‘negro’ para algo negativo, por exemplo: denegrir, lista negra, mercado negro, ‘a coisa tá preta’ e ‘mulato’ (advém de ‘mula’, comparando o negro a esse animal). Aposto que você nem percebeu o conteúdo racista dessas palavras e expressões. Para vermos como o racismo é de fato estrutural...
6) Dentro desse racismo estrutural, há o racismo institucional. O que seria ele e como ele se manifesta?
O racismo estrutural institucional é nada mais do que aquele velado, praticado por instituições tais como escolas e hospitais. Ele se manifesta da seguinte maneira: se 56% da população é negra, proporcionalmente falando, é comum que vejamos uma maioria negra como professores, médicos e outras profissões, certo? Mas sabemos que não é isso que ocorre. Segundo estatísticas do IBGE, os autodeclarados pretos e pardos são maioria nos índices de analfabetismo, de desemprego e possuem a menor renda mensal. Um negro e um branco que realizam a mesma função possuem diferença de salário. Pior ainda se compararmos uma mulher negra com um homem branco. No meio acadêmico, por exemplo, é estatisticamente comprovado que quanto mais vai avançando o ensino (fundamento, médio, superior...), menos vemos a presença de negros. Um exemplo, é a ganhadora da última edição do Big Brother Brasil, a Thelminha, que foi a única negra que se formou no curso de Medicina de sua sala, com dezenas de alunos.
7) E como eu faço para não ser racista?
Agora que aprendemos que o racismo pode se manifestar de formas que nem percebemos conscientemente, está na hora de começarmos a ficar atentos com isso. Se você é branco, e, portanto, privilegiado nesse quesito, ouça o que pessoas negras têm a dizer sobre o tema. Utilize esse seu privilégio para corrigir o que seu colega branco disser de racista. Não é vergonha alguma fazer isso, pelo contrário, é nobre de sua parte lutar pelos direitos e igualdade, mesmo que esses direitos não dizem respeito diretamente a você. Caso seja negro, procure se informar sobre movimentos negros, defenda a sua causa, sua cor, sua história. Se você está lendo agora esse texto, é porque lá atrás seus antepassados deram suas vidas para que você tivesse a oportunidade de ser alfabetizado. A negritude no Brasil sofreu demais. Lutaram, aguentaram humilhações, abusos, violências e agressões que estremecemos só de pensar. Homens negros foram vistos como selvagens, mulheres como objetos mais insignificantes que animais, ambos sendo motivo de desprezo, nojo e ódio da população branca. Mas eles resistiram, e até hoje procuram igualdade e seu lugar no país, que é mais do que seus direitos. Afinal, o Brasil foi construído com o sangue e suor pretos. E, parafraseando a brilhante filosofa símbolo do feminismo negro Angela Davis, lembrem-se: ‘Numa sociedade racista, não ser racista não é o bastante. Temos que ser anti-racistas’.
Esse foi o primeiro de sete textos sobre racismo, nessa semana especial. Qualquer dúvida, estamos sempre a disposição.
Até amanhã!



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