Apropriação cultural
- Catarse
- 2 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Pode branca usar trança? E turbante? Por que ninguém diz nada sobre a negra que alisa o cabelo mas sim sobre a branca que quer deixa-lo crespo?
Para entendermos o termo apropriação cultural, é preciso primeiramente voltar na história. Destrinchando o termo, podemos definir cultura como ‘o conjunto de hábitos e costumes compartilhados por um grupo’. Já o termo apropriação deve ser explicado primeiro por ‘colonização’. Colonização foi o processo em que povos europeus se apropriaram de terras americanas, africanas e asiáticas, provocando um verdadeiro genocídio e etnocídio, interpretado pelos brancos, é claro, como uma forma de progresso. A apropriação que nos referimos, não é apenas do território físico, mas também da cultura e tradições, destruindo as já existentes e inserindo a europeia.
Até hoje, inclusive, o eurocentrismo é dominante. Nas escolas, por exemplos, aprendemos sobre a história da Europa, o que aprendemos sobre a África é sob a ótica europeia. As pessoas vistas como as mais bonitas, dentro do padrão, são as que possuem traços europeus.
Bem, trataremos agora diretamente sobre a apropriação cultural então. Para grupos minoritários, afirmarem sua identidade ao reivindicar aspectos de sua própria cultura, é um verdadeiro ato de resistência. Entretanto, não podemos nos esquecer que estamos em um mundo capitalista, de modo que tudo que tiver a possibilidade de ser transformado em um produto, não importa a que custo, assim o será. E, infelizmente, esse sistema, a partir do branqueamento, ressignificou a cultura de muitos povos para virar um objeto de moda e estilo. Por exemplo, se assistindo um desfile em Paris em que a modelo branca está usando tranças, acharemos estiloso da parte dela. Se as mesmas tranças, que possuem significado histórico, de resistência da população negra africana, estiver numa negra de periferia, ela ganha um olhar de nojo por parte da população. Assim como os turbantes, por exemplo. Se uma mulher branca usar turbante, é considerado parte do estilo dela. Se uma mulher preta usar, associam ela a macumba, inclusive também sendo um enorme preconceito religioso. Ou ainda o fato de muitas lojas usarem modelos brancos para venderem roupas da cultura africana, tendo em vista que uma modelo assim chamaria mais atenção e a roupa seria mais atrativa.
Assim, o problema não é a mulher branca usar trança ou turbante. Uma pessoa só usar isso não vai mudar muito a vida do povo negro. O problema é a sociedade achar o mesmo item bonito para uma pessoa e feio para outra, sendo que para essa ‘outra’ vai muito além da estética, remonta a história de seu povo, que teve a sua cultura inibida por tanto tempo e agora possui a oportunidade de trazer a tona elementos de sua raiz.

Lábios carnudos, naturais de pessoas pretas, antes era visto como feio, esses ‘beiços grossos’. Mas, atualmente, a sociedade arranjou um modo de fazer com que isso se torne em algo lucrativo, como se dissessem as pessoas: ‘ok, isso era feio, estranho. Mas vejam, vocês podem gastar dinheiro para ficar assim, por meio de procedimentos estéticos. Então, olha só branco, agora isso é bonito sim!’. Vocês sabem que não é exagero, e que o número de pessoas (brancas) fazendo preenchimento labial aumenta a cada dia.
Em questão, por exemplo, da negra alisar o cabelo é uma história completamente diferente. Precisamos entender que pessoas negras geralmente possuem o cabelo crespo, assim como lábios carnudos e nariz largo, por exemplo. Mas, é claro, que antigamente (e até hoje, na verdade) era considerado um cabelo feio, duro, ruim, de modo que as meninas e mulheres negras sempre tentaram alisa-lo, buscando deixa-lo mais parecido com o cabelo das europeias, mulheres consideradas superiores em todos os quesitos. Para tirarmos esse estigma do cabelo crespo é um desafio até hoje. Podemos observar com o aumento da representatividade negra em canais no YouTube ou Instagram, por exemplo, ensinando as meninas a cuidarem dos cabelos cacheados e crespos, mostrando que esse tipo de cabelo é maravilhoso. O cabelo black power é adotado, inclusive, por várias celebridades negras, desde as lendas Diana Ross e Tina Turner até a aclamada atriz Viola Davis e Taís Araujo. Contudo, esse preconceito do cabelo crespo ou cacheado ainda está presente na vida de muitas meninas, fazendo com que elas odeiem o próprio cabelo natural, voltando a alisa-los pra transformarem suas madeixas no que é considerado um cabelo bom, bonito: o cabelo de brancos.
Percebem a diferença de uma negra querendo alisar e uma branca buscando deixar o cabelo mais crespo ou ‘armado’? Esta fazendo isso não advém de nenhuma luta do cultural ou algo do tipo, é uma questão meramente estética, que se torna extremamente errado quando achamos esse cabelo bonito logo na branca.
A questão, como podemos ver, é que elementos da cultura negra, e de outras culturas também como a indígena ou asiática, são usados quando convém, quando é lucrativo e pode-se mudar seu significado, reduzindo a mero produto do capitalismo. A moda do negro é aceita, o negro não.



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